segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Etnocentrismo e Relatividade Cultural


Prof. Heitor H. Sayeg 


Ao tratarmos dos estudos culturais, não podemos deixar de considerar os contatos, por muitas vezes conflituosos, entre as mais diversas culturas. A maneira como enxergamos o “outro”, inserido em um contexto cultural diverso daquele compartilhado pelo observador, também pode ser entendido como um reflexo de sua própria cultura e contexto histórico. Por diversas vezes, os relatos e descrições de culturas “exóticas” estão impregnados de visões preconceituosas e de juízos de valor, prejulgando as culturas não-europeias como inferiores. 

A visão cultural etnocêntrica caracteriza-se pela valorização de uma determinada etnia, incluindo sua cultura, em detrimento de outra. Ao posicionar a própria cultura como “superior” ou “melhor”, observamos uma ferramenta que busca justificar a dominação de outros povos, afinal como “superiores” o controle, e até mesmo o extermínio em alguns casos, é visto como um dever ou direito, justificado inclusive através de concepções religiosas. 

Existe uma tendência natural em todos as sociedades em considerar a própria cultura como melhor. Desta maneira, o que os demais grupos sociais fazem, acreditam ou compreendem são vistos como repugnantes, errados e impuros. Ao delimitar o “outro” como errado ou até mesmo culpado por todas as mazelas enfrentadas por uma organização social, a visão etnocêntrica pode até mesmo servir como uma ferramenta para o exercício de controle social por um determinado grupo, como por exemplo o mecanismo adotado pelo regime nazista; ao glorificar e enaltecer as virtudes da raça ariana, menosprezando todas as outras (em especial os judeus), forma-se um centro de coesão em torno de um líder em um momento de crise sócio-econômica, resgatando o orgulho e a auto-estima dos alemães culpando o “outro” pela situação miserável em que se encontram. 

A visão etnocêntrica européia torna-se evidente desde a época das grandes navegações, em um processo que culminou com a quase total destruição da cultura nativa e a imposição dos padrões culturais europeus. Porém, a partir do século XIX, o etnocentrismo toma caráter científico a partir do chamado evolucionismo cultural, teoria antropológica que pressupunha a existência de uma determinada hierarquização das sociedades, partindo das sociedades mais “primitivas” (africanas e asiáticas) até as mais “evoluídas” (européia industrializada); segundo esta teoria, os europeus teriam a “obrigação” de “civilizar” as sociedades tidas como atrasadas e primitivas, servido como uma forma de justificar o domínio europeu nestas regiões. 

Em oposição a esta visão etnocêntrica, a partir da década de 1930 surge uma nova corrente de pensamento antropológico denominada Relativismo Cultural. Esta corrente prega a concepção de que é impossível hierarquizar as diferentes culturas em melhores e piores, pois estas devem ser compreendidas simplesmente como diferentes. Cada grupo social responde de uma maneira diferente ao ambiente em que estão inseridos, assim como ao seu contexto histórico. Cada sociedade se desenvolve em seu próprio ritmo e de acordo com suas necessidades específicas.

A única maneira de compreendermos uma cultura, ou organização da vida social, seria conviver nesta cultura, compartilhando das tradições, ritos e relações dentro de seu próprio contexto pois apenas assim fazem sentido. Um olhar ocidental sobre as relações existentes entre homens e mulheres em uma sociedade muçulmana esta imbuída de prejulgamentos e juízos de valor, pois tendemos a ter um olhar depreciativo sobre aquilo que não faz parte de nossos padrões. Este tipo de visão foi defendido pelo antropólogo Bronislaw Malinowski e denomina-se observação participante. 

Um olhar pautado no relativismo cultural pode (e deve!) ser aplicado dentro de uma mesma cultura, buscando aceitar as diferenças em relação a posicionamentos políticos, etnias, crenças religiosas, opções sexuais existentes entre os membros de uma mesma sociedade. É importante ressaltar que o etnocentrismo e o relativismo cultural são metodologias antagônicas em relação ao modo de se compreender e de estruturar as relações entre as diversas formas de representações culturais.

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